prosa e verso
muito do que temos a dizer
A mulher de olhos de arrepio
I por: Bárbara Anaissi

Foto: Bárbara Anaissi
Entro no barco. Mareio olhos e cabeça.
Saímos.
Água e verde. Água e verde. Água e verde.
Pássaros de cores tantas.
Sol queima e cega.
Som de rio. Cheiro de rio.
Ar de floresta.
Muito para pulmão urbano.
Estou no barco. Mas não estou.
Matapi.
Casas ribeirinhas sorriem.
Povo ribeirinho acena.
Água e verde. Água e verde. Água e verde.
Silencio olhar de cidade. Tento aprender olhar de mata e rio.
Chego.
Do barco para a casa.
Não há paredes.
Há Marisa e Catarino.
E Chiquinho, Cavalo Marinho, pretos e pretas velhas,
caboclos, encantados.
Areal de Matapi.
Corpo no rio, cabeça que não chega.
Rede, prosa, peixe, açaí, bacaba.
Voz de Marisa. Olhar de Catarino.
Rio enche. Folhas dançam. Rio vaza.
Banho, banho, banho, banho, banho.
Voz de Marisa.
Sono em ar livre. Da outra beira do rio,
olhos da floresta.
Vigiam.
Sono bom que há muito não vinha.
Corre o rio aos nossos pés. Leva tanto o rio…
Acordo.
Céu grita de sol.
Floresta mostra todos seus tons de verde.
Rio corre manso.
Catarino faz café na varanda.
Catarino, gigante gentil.
Todos comem com rio aos pés.
Marisa olha e olha e olha...
Quando olho de Marisa pousa em olho outro,
arrepia.
Pousa no meu: — Moça?
Paraliso...
Marisa sabe mais da gente do que a gente.
Mestre Poraquê? Cavalo Marinho? Vovó Redonda?
Boto?
Todos.
Todos falam em Marisa.
“Pajé”
É como gosto de chamar a mulher de olhos de arrepio.
A que já é mãe de todos.

Sou jornalista e especialista em formação do leitor em múltiplas linguagens. Estou no mundo dos livros desde 1993 atuando em diversas áreas. Em 2015 fundei a Macondo Casa Editorial onde, com minha sócia e um grupo de parceiros e amigos,
trabalho projetos editoriais e educacionais que despertem afetos e sorrisos. Tenho textos nas coletâneas Biblioteca e ações de leitura e Quantas portas cabem numa porta?.Livros, cachorros, sol, mar, vinil, conversas e amores me ocupam por inteiro.(@barbaraanaissi / @macondocasaeditorial).
Através daquela página
I Suelen D'Andrade Viana

Ofegante entrei no final da tarde na biblioteca da rua três. As bibliotecárias estavam ocupadas com algumas conclusões de tarefas. Em silêncio entrei, em silêncio fiquei; em um canto que me pareceu acolhedor para minha solidão e inquietude. Não fui atrás de leituras, fui atrás de estantes cheias de livros e de labirintos que dificultariam o acesso à minha existência.
Não queria abrir um livro e ler. Queria fechar os olhos e ver qualquer coisa que não estivesse fora de mim. Ver apenas, sem nada ouvir, sem nada tocar, as coisas de mim. Peguei um livro, encolhi-me com ele nas mãos e fechei-me em suas páginas abertas. As bibliotecárias desligaram as luzes e saíram trancando a porta.
Dormi. Não sei por quanto tempo, mas o suficiente para acordar sem começo e sem fim. O livro que eu havia tirado da estante e que estava em minhas mãos, vi-o sobre a pequena mesa em minha frente - fechado.
A única luz sobre mim vinha da lâmpada de segurança.
Eu estava em modo seguro. Sem ninguém por perto para me acolher com perguntas, conversas cansativas, repetitivas, fingidas de entendimento e sedentas de lágrimas.
Pensei que se eu ficasse ali quieta cairia no sono novamente e acordaria pela manhã com as bibliotecárias abrindo a porta.
Fechei com força os olhos e enfiei-me de novo dentro de mim, pelas minhas veias, pelas minhas entranhas, com ânsia de vômito. Azeda. O meu gosto de mim mesma. Um gosto triste, condicionado há anos no mesmo recipiente de vidro bonito e já envelhecido. Se eu caísse ali e me quebrasse toda, esparramando todo líquido rugoso de meu silêncio, manchando páginas inteiras com minha autoficção, talvez alcançasse algum entendimento que me acolhesse as revoltas mal ditas. Se ao menos através de uma página…

Sou formada em Letras e Linguística. Sou também jardineira, leitora e mãe em tempo integral. Nas horas vagas, dou aula de inglês para crianças e compartilho conversas e ideias sobre livros e sobre nós, sem pressa, no perfil @livrinho.e.tanto.
