papo reto
diálogos com quem faz
Entrevista
João Anzanello Carrascoza I por Fernanda Baroni

Foto: Arquivo pesoal
Carrascoza é escritor e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, autor de mais de 60 livros infantojuvenis, contos, não ficção, romances e adaptações. Foi ganhador de prêmios como o Jabuti, FNLIJ e o Guimarães Rosa.
O menino leitor que fui é o pai do autor que sou
Quando soube que João Anzanello Carrascoza viria falar conosco sobre seu processo literário, na Oficina de Escrita de Anna Claudia Ramos, meu ímpeto foi de revisitar seus livros que eu tinha na estante e correr para adquirir Linha única, indicação de amigas que conhecem bem minha paixão por microcontos. Mas nada que eu fizesse anteciparia a noite especial que estava por vir.
Se eu fosse escrever sobre ele antes do nosso encontro, certamente me referiria ao autor de palavras certeiras, de temas fortes e sensíveis e à sua facilidade de se dirigir a adultos, jovens e crianças com a mesma precisão. E o chamaria de Carrascoza, como sempre fiz.
Mas, naquela noite, tive a sorte de conhecer o João.
João tem um sorriso grande que acende os olhos e assegura que ele não ficciona quando diz que ainda existe um menino dentro de si. Os mais de trinta anos de uma carreira premiada e as dezenas de livros publicados no Brasil e no exterior não apagaram nele o jeito calmo e atencioso de quem cresceu no interior.
Durante uma hora e meia, o autor de Trilogia do adeus, Elegia do irmão, Caderno de um ausente e Aos 7 e aos 40 e de centenas de contos espalhados em outras dezenas de livros falou sobre sua trajetória e respondeu às perguntas do nosso grupo, formado por escritoras e estudiosas de literatura.
Nos conectamos em uma noite de maio, por um sinal de internet que ligava Macapá, Recife, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro em uma sala virtual. Mas foi só ele começar a falar que a sensação era a de que tinha aberto as portas de sua casa para nos receber com bolo e café passado na hora. Com sensibilidade, João estendeu a amizade que nutre por nossa professora Anna Claudia ao seu grupo de alunas: “A vida fica menos solitária quando a gente trabalha com as palavras”, disse. De cara reconheceu uma ex-aluna e nomeou outra, dizendo que já a conhecia das redes sociais. E, sorrindo, nos convidou a entrar: “Somos todos queridos agora.”
A entrevista a seguir resume parte do que ouvimos e é resultado das perguntas feitas por várias de nós. Pelas respostas, você também vai conhecer um pouco mais do escritor que começou sua carreira como redator publicitário e hoje acumula a literatura com as salas de aula. “Estudei em escolas públicas toda a vida e agora retribuo o que recebi”, contou.
Por essa frase já daria para ter uma ideia da personalidade generosa de João Anzanello Carrascoza. Se eu te adiantar que ele tinha um avô trovador, que seu interesse pela leitura das pessoas veio antes da leitura da palavra escrita, que sua primeira história foi feita para crianças e que, ao perguntar se poderia publicar o conteúdo compartilhado conosco, respondeu: “A ideia é ampliar a corrente”, aí mesmo que você vai começar a ler a entrevista com o mesmo gostinho de quero mais com que nós terminamos o bate-papo. E, quem sabe, vai compartilhar o sentimento que a Viviane Lucas expressou: “A escrita do Carrascoza atinge lugares em mim que, quando termino de ler, preciso escrever.”





1. Como você se descobriu escritor?
Acho que passei a ser escritor por conta da leitura. Ler e escrever são linhas de força que se entrelaçam. E o interesse pela leitura veio antes da leitura da palavra. Veio pela leitura do mundo, das narrativas orais. Sou de Cravinhos, no interior de São Paulo. Como toda cidade pequena, por não ter muito o que fazer, você fica concentrado em tudo que acontece diante de você. Uma das coisas que mais me interessavam, ainda menino, era ouvir as histórias que as mulheres me contavam. Quando aprendi a ler, passei a buscar nos livros outras histórias. Minha mãe sempre foi leitora. Até hoje, com 86 anos, está sempre lendo. Comecei a ler os livros da sua estante e, quando acabaram, fui procurar outros na escola. Eu tinha uns oito anos e, depois de devorar todos os livros da escola primária, fui pedir outros no colégio do Ensino Médio.
Em um certo momento, pensei: se gosto de ler histórias, também posso contá-las. Comecei contando o que eu lia para os amigos e, aos 12 anos, “criei” a Academia Cravinhense de Letras. Nos reuníamos todas as quartas-feiras e cada um levava um texto para ler. Aos 16 anos resolvi escrever histórias minhas. Um certo domingo, ao abrir o jornal da cidade, deparei com um texto que eu tinha escrito, que minha tia tinha enviado para o editor sem que eu soubesse.
2. E quando veio o primeiro livro?
Só depois que vim pra São Paulo, para cursar Comunicação, foi que passei a escrever com mais disciplina. Ainda estava aprendendo a ampliar as curvas narrativas, mas queria contar histórias. E, para contar, precisava do exercício de escrever, não só de sonhar. Então comecei a escrever textos curtos. Ainda no primeiro ano da faculdade, resolvi participar de um concurso de contos e fiquei em terceiro lugar. No ano seguinte, participei de outro e venci. Quando fui receber o prêmio, descobri que o júri tinha sido formado por “gente importante”, autores experientes. Essa foi a primeira vez que me dei conta que meus contos tinham algum valor. Algum tempo depois, uma amiga me convidou para contar histórias numa escola e escrevi uma para ler para as crianças. Chamava-se As flores do lado de baixo. Quando terminei de contar, uma mulher me perguntou se aquela história já havia sido publicada. Ela era dona de uma livraria e enviou o original para seus contatos em editoras. Recebi resposta de duas editoras e acabei fechando com a Melhoramentos. Nunca imaginei que estrearia com literatura infantil. Uns dois anos depois, publiquei meu primeiro livro de contos, Hotel Solidão.
3. Você passeia por diversos gêneros literários e diversos públicos. Quando você pensa em uma história, já sabe a quem se destina?
Metaforicamente, quando sento na cadeira para escrever, é como se estivesse diante de um dial de rádio. Sinto que tenho que entrar em tal estação e começo a fazer a história. Muitas vezes é a estação da leveza, do imaginário, das asas. Mas, outras, por vivências dolorosas ou inquietudes da vida, o tal dial sintoniza numa estação pesada, difícil de sair, e aí escrevo algo que está naquela temperatura, provocado a enfrentar o que estou sintonizando.
Fiz um livro de microcontos chamado Linha única que tem textos bastante filosóficos, contundentes, meio amargos, e outros mais leves. Depois extraí dali dez histórias e fiz mais dez que se transformaram em Vamos acordar o dia, que é um livro de microcontos para crianças. Então, os textos estão misturados. Se o leitor já tem competência leitora, ele pode ler. É claro que tem histórias em que o trabalho é mais lúdico,
explorando o menino que sou ainda. Lembrando Machado de Assis, que diz que o menino é o pai do homem, o infante que fomos é o que nos constrói. Acho que o menino leitor que fui é o pai do autor que sou.
4. Por falar em microcontos, como você pensa o enredo quando escreve narrativas curtas?
Sempre falo que o microconto é um argumento para você ampliar a história, mas ele já contém a história, justamente pela maneira como foi construído – com suas elipses e contenções. Eu penso sempre na história inteira, antes de transformar naquela frase. Ali já tem a síntese de uma narrativa completa. O microconto tem que ter verbo de movimento, sujeito, conflito, desfecho. Senão, não será uma história, pode ser uma máxima, um axioma, mas não será um microconto.
5. Você teve contato com a poesia popular?
Li todos os livros que caíram nas minhas mãos, de todos os gêneros, e tinha muita poesia, de formatos vários e escolas literárias que eu nem conhecia. Li Álvares de Azevedo, Castro Alves, Gonçalves Dias, Manoel Bandeira, Drummond. A poesia sempre foi muito marcante para mim. Talvez por isso na minha obra apareça uma narrativa que está sempre aberta ao lírico, ao trabalho com metáforas, com figuras de linguagens sonoras – como aliterações, anáforas. Me toca escrever de um jeito que possa parecer uma melodia. Meus amigos brincam que eu tinha isso no sangue porque meu bisavô era trovador.
6. Existem elementos biográficos nas suas histórias?
Sim. Para Elegia do irmão, por exemplo, me vali de uma perda enorme que foi a morte da minha avó materna. Na vida real não era uma irmã, como no livro. Eu queria escrever essa história e precisava acessar essa dor. A gente tem que transfigurar e fazer disso nosso ponto de partida, nossa matéria. Como dizia a escritora Hannah Arendt, “a gente está aqui para escrever uma única história”. Depois vai mudando as narrativas, colocando outros personagens, mudando a trama, o enredo, mas a minha história está sempre ali. Alguns escritores impõem mais suas vidas nas suas obras, outros, menos. Mas acredito que, como Roland Barthes dizia, não existe uma biografia que não tenha nada ficcional e não existe ficção sem algo biográfico.
7. Você fala muito da finitude. Como é lidar com essa questão do tempo?
Quando você escreve sobre perdas, são perdas que foram ganhos na sua existência. Mas é claro que tem outros elementos figurativos e outras coisas que aconteceram, que vou trazendo para construir um personagem complexo. Porque a literatura é isso – um artifício que a gente tem que construir de tal forma que pareça real, que crie efeitos de realidade. Senão, não toca ninguém. A literatura pode mostrar, em vez de dizer. E quando a gente fala muito da morte, é porque estamos falando da vida. Toda jornada tem um fim e o importante é o caminho. O durante é o que nos faz estar aqui, mas o fim não é uma punição, é uma celebração da existência.
8. Seus personagens têm a característica de ter um tempo para sentir o outro. Eles querem conhecer o outro. Você também é assim?
Acho que sim. Como disse, sou de uma cidade pequena e, desde menino, ficava observando tudo. Acho que isso criou uma espécie de enquadramento do meu olhar. Vou chegando devagar nas pessoas, não abro uma panorâmica e nem chego num zoom no rosto de ninguém. As cenas que escrevo vão abrindo aos poucos o cenário, o espaço x tempo, o rosto de alguém, o lugar onde estão. São sempre pessoas diante de outras, esse negócio de ver que o mundo não é só você. Acredito que o que justifica a sua existência é a existência do outro. Isso para mim é fundamental e pauta a minha literatura. Não há nada mais importante do que a entrega, o exercício da vida com a palavra. O momento da escrita é impagável. Mas sempre penso: eu vou escrever, mas não faz sentido se eu escrever só pra mim. A gente quer que o outro receba o que conseguimos transformar.
9. Mudou algo na sua escrita e na sua autopercepçãodepois de ser premiado?
Os prêmios são um dos pontos de legitimação do trabalho, mas eles não são os únicos e nem os mais importantes. Você tem os estudos, as vendas dos livros, a aceitação dos textos, a crítica, os pares, o país vendo a sua literatura, a transformação dos textos em outras plataformas... Tudo isso legitima o interesse pela sua literatura. Os prêmios abrem espaço para vozes novas ou para consolidar quem já está trabalhando.
Mas não são dados por entidades espirituais ou gente de outros planetas. São dados por gente como a gente, leitores. Isso é o principal, ter leitores. O prêmio não é uma corrida de cavalo, pra ver quem chega primeiro, é uma série de subjetividades. Mas se, vez por outra, você é premiado ou está nas listas de finalistas surgem convites para viajar, levar sua literatura para fora, ter tradução. isso é um prêmio também. É bonito ver um monte de gente te lendo.
Sou carioca, me formei em jornalismo quando ainda existiam máquinas de escrever. Minha relação com as histórias é um amor antigo, que alimento, de letra em letra, lendo e escrevendo desde menina. Sou também editora, escritora e estudiosa de literatura infantil e juvenil. Em 2023, tirei da gaveta um sonho antigo e comecei a publicar a Revista Letra Miúda, com um time incrível de escritoras. Além da revista, tenho histórias espalhadas em livros infantis, juvenis e adultos. Acredito na literatura como plataforma de voo e compartilho minha paixão por minicontos no perfil @nanacontos_. Vou adorar continuar a conversar com você por lá.


