prosa e verso
muito do que temos a dizer
Esse é nosso espaço dedicado aos textos literários.
Nesta quinta edição, nossas colunistas exploraram o tema territórios literários.
Território
A letra preta
sentada na folha branca
espera…
outra chega.
Rapidamente são muitas,
traçando no mesmo sentido.
Ocupam palavras,
libertam frases,
rompem fronteiras nas margens.
Suas pegadas resistentes
sobre o incômodo vazio
desafiam a violência
das gomas dominadas.
A mão que as alimenta
tem fome existencial.
É urgente indicar
o ponto de chegada
que suplantará o ponto
dito final.
Eis, então, um território
duramente conquistado.
Eis a fotografia de uma voz
que revela bocas, mentes,
povos e mundos.
É preciso remapear
a geografia
da carta colonizada.
Entregar
à antropologia das narrativas
o olho que lhe faltava.
Ylê! Asê!
Úrsula tem Olhos d’Água
que inundam os
Becos da Memória
entre o Quarto de Despejo
e a Casa de Alvenaria.
Maria Clara, A Felizarda, coleta, violentada, Pedaços da Fome.
Luiz Gama tem mãe
e Defeito de Cor
não existe.
Parem de nos Matar!
Observem
O Tear da Palavra
que trança o Tempo de Retomada.
É na Boca da Noite
que A Cobra Grande
engole o mundo
e o digere entre rios de sangue.
Nós é Metade Cara,
Metade Máscara.
e O vento, gentil, espalha
a força da voz originária.
Yby! Nhe’enga!

Arte: Samara Costa
Obras literárias citadas:
Maria Firmina dos Reis: Úrsula.
Conceição Evaristo: Olhos d’Água; Becos da Memória.
Carolina Maria de Jesus: Casa de Alvenaria; Quarto de Despejo; Pedaços da Fome (Felizarda).
Ana Maria Gonçalves: Um Defeito de Cor.
Cidinha da Silva: Parem de nos Matar!.
Graça Graúna: O Tear da Palavra.
Cristino Wapichana: A Boca da Noite; A Cobra Grande.
Eliane Potiguara: Metade Cara, Metade Máscara; O vento espalha minha voz originária.
Palavras em línguas originárias:
“Ylê! Asê!”:
“Ylê” (iorubá): significa “casa” ou “terra”.“
Asê” (iorubá): significa “energia vital”, “força espiritual” ou “bênção”.
Tradução aproximada: “Terra! Axé!” ou “Terra! Força vital!”.
“Yby! Nhe’enga!”:
“Yby” (tupi-guarani): significa “terra”.
“Nhe’enga” (tupi-guarani): variação de “Nhe’e-anga”, que significa “eco de minhas palavras” ou “canto” ;
acessado em https://encurtador.com.br/7xrEq
Tradução aproximada: “Terra! Língua!” ou “Terra! Canto!”

Sou formada em Letras e Linguística. Sou também jardineira, leitora e mãe em tempo integral. Nas horas vagas, dou aula de inglês para crianças e compartilho conversas e ideias sobre livros e sobre nós, sem pressa, no perfil @livrinho.e.tanto.
Melhor presente
Passava o dia
de porta em porta,
entregava cartas.
Os escritos vinham
de todas as partes:
memória, dor e saudade.
Gostava de ver
a felicidade estampada
no olhar do destinatário.
Um dia
decidiu escrever
para sua filha.
Dessa vez, não pode ver
seus olhos
marejados de saudadade.
Leila Fernanda Arruda
@leilafernandaarruda

Gosto de saber que sou uma bordadora do pensar. Sou servidora pública e também escritora e contadora de histórias. Agora tenho me aventurado pelo mundo da ilustração. Faço parte do Coletivo Teia Literária Vozes desde a sua fundação e tenho textos nas antologias Ecos da resistência (2021), Cartas para o futuro (2022), Mulherio das Letras Portugal (2022) e Poetize (2022). Escrevo também sobre as autoras do coletivo e as teias que nos unem no perfil @teialiterariavozes
Minha mala de saudade
Nas terras do Pajeú
O berço da poesia
Eu bebi de uma fonte
Que me trouxe alegria
Por escrever, declamar
esse amor, que irradia
Voltando do meu sertão
Uma tristeza me invade
Queria ficar mais tempo
Pra matar minha saudade
De respirar natureza
A poesia em realidade
Minha mala de saudade
vou enchendo e carregando
Por onde passo, abasteço
Por onde vou caminhando
Deixo um pouquinho de mim
E é muito o que vou levando.
Érica Montenegro de Mélo
@encantodoconto

Sou pedagoga, mestra em linguagem e especialista em Literatura infantojuvenil. Escritora e consultora literária, mediadora de leitura, contadora de histórias e cordelista, vivo imersa na literatura.Pesquiso as camadas da literatura e escrevi oara as infâncias em oito livros e dezenas de folhetos de cordel. Participei de coletâneas com poemas e contos para públicos diversos. No perfil
@encantodoconto discuto processos de formação de leitores e compartilho a rotina de uma biblioteca escolar no Recife.

Terra Nullius
Muito gorda, muito magra.
Meu, seu, de todo mundo.
Não ouse guardar o seu corpo.
Ou cedê-lo.
Não goze, não sinta, não queira.
Queira, goze, sinta.
Cubra-se.
Não mostre muito.
Dispa-se.
Me atenda.
Malhe, mas não muito.
Pinte as unhas, tire os pelos.
Corte o cabelo, deixe crescer.
Coma menos, coma mais.
O nosso corpo
a serviço do homem.
Mais peito,
mais bunda,
mais boca.
Pense menos,
questione nada,
não ouse opinar.
Sinta-se pouco,
insuficiente, inadequada.
Assim somos condicionadas.
Não envelheça.
Encaixe-se na fôrma.
Não expanda.
Habitat hostil.
Desconfortável.
Território sem leis.
Território de ninguém
e de todo mundo.
O corpo – o seu,
que nunca é
verdadeiramente seu.
Seja feminina. Tenha curvas.
Mas não as deixe à mostra.
Esconda um pouco.
Esconda tudo.
Agora mostre.
Quero nua.
Quero minha.
Compartilho com os meus.
te sirvo de nadeja
quando me convir.
Meu troféu.
Te exponho
Te uso.
Te descarto.
Te desejo corpo, carne.
Não te quero inteira.
Sem cabeça, sem cérebro.
Sem vontade.
Até não querer.
Passo adiante.
Outra.
Terra nullius.
Terra de ninguém.

Eu sou a nanda, mulher, mãe, escriba em desenvolvimento, contadora de histórias, caçadora de estrelas, apoiadora de mulheres, entusiasta da vida e do amor, das miudezas, dos sentimentos que viram palavras. Sou a pessoa por trás do instagram @palavraemprosa e me aventurei na coragem pra colocar na pontinha dos dedos o que pulsa aqui dentro.

