papo reto
diálogos com quem faz
Entrevista
Rosa Montero I por Anna Claudia Ramos

Foto: Ivan Giménezl
Rosa Montero nasceu em Madrid e estudou jornalismo e psicologia. Colaborou com grupos de teatro independentes e logo começou a publicar em diversos meios de comunicação. Continua a exercer o jornalismo e publicou mais de 20 romances e quase uma dezena de ensaios traduzidos para cerca de 30 idiomas. Frequentemente fala da relação entre loucura, criatividade e literatura em obras, mas em O perigo de estar lúcida (Todavia, 2023) mergulhou obssessivamente no tema.
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Fui uma escritora esquelética, mas aprendi a preencher a carne
Esbarrar com Rosa Montero nas ruas de Paraty, durante a Flip 2025, foi um assombro. A escritora espanhola sempre foi uma das minhas favoritas e puxar assunto foi inevitável. Rosa respondeu com atenção às minhas palavras dirigidas em portunhol. Perguntei se poderia me dar uma entrevista, trocamos e-mails e fiquei querendo acreditar que daria certo. Deu.
Tendo lido A louca da Casa e O perigo de estar lúcida, quando chegou o momento da entrevista pensei que um bom jeito de começar a nossa conversa seria citando um trecho de um ensaio de Freud, “Escritores Criativos e Devaneios”, com o qual sempre me identifiquei: “O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo novo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo mundo e a realidade”. Quis saber sua opinião sobre esse assunto e se ela concordava com a citação. Rosa me respondeu:
“Concordo com a tua observação. De fato, no meu livro O perigo de estar lúcida, vou além dessa citação de Freud, pois, naquela época, a neurociência ainda estava engatinhando. Hoje, já se sabe muito mais.
Sabe-se que o cérebro humano não amadurece completamente até os trinta anos e que um dos passos mais importantes desse amadurecimento acontece na primeira puberdade. Até então, a criança tem o cérebro hiperconectado. Todos os neurônios se conectam uns com os outros. Nessa primeira puberdade, há um passo de amadurecimento muito importante que é o cérebro se podando radicalmente. Se cortam todas as conexões que não são úteis e que desconcentram o cérebro, o que é muito bom para a sobrevivência humana, para concentrar o cérebro em caçar mamute, se manter vivo... Acontece que se descobriu que em uma porcentagem de humanos – não se sabe exatamente quantos, mas eu calculo que seja uns 20% – o cérebro não é podado. Ou é, de uma maneira insuficiente, irregular. Essas pessoas seguem tendo o cérebro hiperconectado, como as crianças. Segundo os neurocientistas, nesses 20% estão as pessoas com transtornos mentais e nós, que nos dedicamos a coisas criativas, que continuamos a ter o cérebro como as crianças.”
A partir daí, a conversa fluiu solta, provando ser verdade o que dizem de sua personalidade apaixonada e instigante.
1. Em seu curso de escrita na Casa Folha, você disse que “a loucura não te faz artista”, e que o artista que enlouquece não consegue mais criar. Para você, qual o limite entre a loucura e criação artística?
Bem, o limite entre a loucura e a criação artística é o mesmo que entre a loucura e a vida normal. Mesmo que tenha particularidades, a particularidade e a diferença não são patológicas. Quando isso se converte em patologia? Quando se perde o controle e não é possível seguir adiante. Quando acontece e te escraviza. É a mesma diferença com a criação artística. Quando você perde o controle e não sabe o que está fazendo, se deixa de diferenciar a criação e a converte na sua própria vida, isso já seria um delírio psicótico. Os mais experientes dizem que a novela é um delírio controlado. Então, quando o sintoma te arrebata e te tira a liberdade de controlar a sua vida, estamos falando de transtornos mentais.


2. Certa vez você disse que para ser escritor não precisamos sofrer, muito menos ter uma vida atormentada. A escrita para você nasce de forma mais leve ou mais sofrida?
"Da dor de perder nasce a obra." Essa frase é minha, mas se deduz do livro do psiquiatra Philippe Brenot. Ele tem um livro maravilhoso que se chama O gênio e a loucura. Bom, evidentemente não só ele, mas todos dizem que verdadeiramente escrevemos contra a perda, o mal e a dor... Eu sei que escrevo para tentar dar ao mal e à dor um sentido que, na realidade, sei que não existe. Ou seja, a arte é uma maneira de iluminar a escuridão. Já dizia Georges Braque: “A arte é uma ferida feita de luz.” Essa é uma frase que me encanta, inclusive tenho tatuada na perna. Para mim, significa: O que vamos fazer com as feridas da vida senão tentar transformá-las em luz para que não nos destruam? Claro que a criação está relacionada com a dor. Se imaginarmos a vida do homem ou da mulher mais felizes do mundo, ainda assim há dor suficiente para escrever uma biblioteca inteira, só contando com a dor da própria morte ou a dor da morte dos seres queridos.
3. Como é esse processo de "escrever para colocar luz em suas obsessões"?
Veja, todos nós, escritores, escrevemos sempre sobre nossas obsessões. Todas as novelas terminam sendo voltas sobre as mesmas coisas. A princípio, quando começamos a escrever, nem nos damos conta. Depois de um tempo já fica evidente. Então, você não escreve para ensinar nada, escreve para aprender, para colocar um pouco de luz sobre as sombras, sobre o desassossego, angústias e dúvidas. Os grandes ou pequenos abismos internos.
4. Nos encontros com leitores ou em oficinas literárias, é comum perguntarem o que fazemos quando temos um bloqueio criativo. O que você fala quando te fazem essa pergunta?
Veja, depende do tipo de bloqueio. Depois da minha terceira novela Te tratarei como uma rainha, comecei a escrever outra. Já tinha mais de cem páginas e tive um bloqueio, não pude continuar. Larguei tudo e não escrevi por quase três anos. Um verdadeiro bloqueio. Esse que o romancista chileno José Donoso chamava de “seca”. Porque não consiste em que não se possa escrever, consiste em que não se possa imaginar. O seu cérebro seca, é como se não te passassem imagens nem emoções pela cabeça. No meu caso, não sei qual foi o motivo e nem sei como voltei a escrever. É um bloqueio bem específico, dá medo porque pode te acontecer. O outro bloqueio, mais comum, é o que creio que seja um problema do inimigo interior, porque o maior inimigo de uma pessoa criativa é o inimigo interior, o que chamam de ego, o superego que dizia Freud. Esse ego consciente que diz que você não tem valor, que não serve, que não vai te ocorrer nada enquanto escolhe qual é a ideia melhor. Cada um tem que fluir na criatividade, tem que apagar esse ego para criar. Nesses casos, sugiro que façam exercícios tentando apagar o ego, por exemplo, escrevendo sem querer que seja algo importante. Simplesmente produzir um conto de vampiros ou criar algo a partir de um assassinato ou de uma cena de ciúmes. Ou então abrir um livro qualquer, ler uma página e, a partir disso, escrever algo. É uma forma de ir aquecendo e entrando na escrita, apagando o ego. Normalmente, funciona.
5. Por falar em exercícios, em uma de suas aulas para a Casa Folha, você comenta sobre ser uma espécie de médium, porque as histórias te atravessam. Gostaria que você falasse um pouco mais sobre esse assunto.
Sim, o que disse sobre ser médium é exatamente o que se deduz do que eu te falei antes: temos que apagar o “eu” interior. Julio Ramón Ribeyro, escritor peruano, dizia que uma novela madura exige a morte do autor, é uma morte metafórica, a morte do eu. Temos que apagar realmente o “eu”. Para escrever bem, tem que escrever no escuro, sem saber aonde vai ou porque escolheu certas coisas...é como sonhar com os olhos abertos. Da mesma maneira que você não escolhe o que sonha à noite, também não escolhe a novela que escreve. De alguma maneira é abrir um canal direto com o inconsciente.
6. Adorei sua fala sobre cada escritor se perguntar que tipo de escritor é. Aí te pergunto: e você, Rosa, que tipo de escritora você é?
Veja, sou o tipo de escritora que teve que aprender. Há vários tipos, por exemplo, escritores sucintos e escritores hemorrágicos. Há aqueles escritores que enchem e enchem várias páginas e precisam aprender a se conter, porque preencher muitas páginas é um erro. E existem escritores sucintos, esqueléticos, a quem falta “carne”. Eu fui do grupo dos esqueléticos, mas aprendi a preencher a carne, por saber que eu pertencia a esse grupo. Portanto, há escritores que não sabem começar, escritores que não sabem terminar e escritores que se perdem no meio. Eu também sou desses escritores que se perdem no meio. Isso é outra coisa, dentre tantas, que seria preciso aprender. Então, há escritores que tendem a algumas debilidades e você precisa reconhecer. Uma minha é ser sentimental. Tive que aprender a ser mais implacável, inclusive, com os meus personagens. Outra coisa é saber se é um escritor, por exemplo, de conto, de relato, de novela. Eu sou de novela, escrevi alguns contos, mas não é o meu forte. Assim que são várias coisas que o escritor vai aprendendo sobre si mesmo e vai tentando compensar.
7. Muito interessante sua ideia da mente como uma galáxia ardente, onde existe um ritmo, uma música que precisa sair de lá e vir para a materialidade. Essa é a carpintaria de escrita, não é? Dar vida a essa vida que nasce nessa galáxia interna?
É muito interessante o que diz, porque, claro, você não controla nada. Tem um fio que surge na cabeça, essa espécie de sopa cósmica que nasce diretamente do inconsciente. Eu digo que nem sequer sabemos o que estamos fazendo. Acontece que você tem que passar isso para a página e é aí que entra o que você diz: a carpintaria, a escrita, o estilo, os truques que vai aprendendo. Por um lado, tem que perder cada vez mais o controle para que as histórias brotem sozinhas. Por outro, cada vez tem que controlar mais a tua matéria, tua arte, tua maneira, como o carpinteiro que esculpe os pés para uma poltrona e cada vez tem que saber esculpi-los melhor.
*tradução: Fabíola Oliveira
Sou escritora, professora de oficinas literárias, graduada em Letras e mestre em Ciência da Literatura. Esse ano completei 34 anos como autora e já ultrapassei a marca de 100 livros publicados entre infantis, juvenis e adultos. Viajo mundo afora ministrando palestras e oficinas. Já fui finalista do Jabuti, recebi prêmios como o Guavira, Adolfo Aizem/UBE, Selo Cátedra 10, Altamente Recomendável/FNLIJ, e meu livro Em algum lugar do mundo compõe o Clube de Leitura ODS em Língua Portuguesa, da ONU. Participo de diversos projetos literários e de incentivo à leitura e das mais importantes Feiras de Livro do Brasil e do exterior. www.annaclaudiaramos.com.br.

